Muita impugnação nasce antes da perícia — nasce no quesito mal formulado. O advogado usa um modelo genérico, o perito responde em uma linha, e o resultado é uma prova técnica que não ajuda ninguém. A elaboração de quesitos periciais médicos é, provavelmente, um dos pontos mais sensíveis da fase de instrução — e o mais subestimado.

O problema dos modelos prontos

Modelos de quesitos circulam em grupos de WhatsApp, fóruns de advocacia e bancos de petições. O advogado copia, adapta minimamente e protocola. O resultado é previsível.

Perguntas como "o periciando está incapacitado para o trabalho?" ou "há nexo causal entre a doença e a atividade laboral?" são tão amplas que o perito pode responder sim ou não sem revelar seu raciocínio clínico. Não há como contestar uma resposta monossilábica. Não há como pedir esclarecimento sobre uma conclusão que nunca foi justificada.

O quesito genérico é uma perda concreta de utilidade da prova técnica. E, dependendo do caso, é uma oportunidade que não volta.

O que faz um quesito funcionar

Três características separam um quesito útil de um quesito decorativo.

Especificidade: o quesito aborda um ponto clínico concreto do caso, não uma pergunta abstrata. Em vez de "há nexo causal?", perguntar: "Considerando que o reclamante exerceu atividade de flexão repetitiva do punho por 6 anos (autos fls. XX) e que a eletroneuromiografia de [data] demonstrou comprometimento do nervo mediano, é possível estabelecer relação entre a atividade e o diagnóstico de síndrome do túnel do carpo?"

Sequencialidade: cada quesito constrói sobre o anterior. A resposta ao primeiro delimita o terreno do segundo. O perito vai percorrendo um raciocínio — e cada passo fica registrado.

Fundamentação técnica: o quesito demonstra que quem formulou conhece o caso. Isso muda a postura do perito, que percebe que está diante de quesitos informados, não de formulário genérico.

Quesito ruim vs. quesito melhor: exemplos

Ruim: "O periciando está incapacitado?" Melhor: "Considerando os achados do exame físico realizado e os exames de imagem dos autos, descreva quais atividades laborais o periciando consegue e não consegue realizar no contexto de sua função habitual de [descrever]."

Ruim: "Há nexo causal?" Melhor: "Tendo em vista o histórico ocupacional documentado (exposição a [agente/atividade] por [tempo]), os achados clínicos atuais e a literatura médica sobre a relação entre [atividade] e [diagnóstico], é possível estabelecer relação causal ou concausal?"

A diferença: a primeira formulação permite resposta solta. A segunda exige que o perito articule raciocínio clínico. Se ele errar ou omitir, existe base concreta para contestação.

O que não perguntar

Quesitos retóricos prejudicam. Perguntar "o senhor perito concorda que laudos superficiais prejudicam o periciando?" não é quesito — é provocação. O perito ignora ou responde evasivamente, e o advogado desperdiçou uma pergunta.

Quesitos excessivamente técnicos que fogem do caso também não ajudam. Perguntar sobre fisiopatologia molecular quando a questão é funcionalidade prática do trabalhador confunde mais do que esclarece.

O quesito precisa ter um objetivo claro: produzir uma resposta que, favorável ou não, contribua para a instrução.

Quesitos para trabalhista vs. previdenciária

Na perícia trabalhista, os quesitos giram em torno de nexo causal e capacidade laborativa. O advogado precisa que o perito se posicione sobre a relação entre doença e trabalho, sobre concausalidade e sobre o grau de comprometimento funcional para a atividade específica.

Na perícia previdenciária, o foco muda para incapacidade funcional — temporária ou permanente, para o trabalho habitual ou para qualquer trabalho. Perguntar sobre diagnóstico sem perguntar sobre funcionalidade é insuficiente: dois segurados com o mesmo CID podem ter quadros funcionais completamente diferentes.

Essa distinção é frequentemente negligenciada quando se usa modelo único de quesitos para todos os tipos de ação.

Quando o médico precisa entrar na elaboração

Quase sempre. O advogado conhece o processo e sabe o que precisa provar. O médico conhece a clínica e sabe quais perguntas extraem do perito respostas úteis.

Quando cada um trabalha sozinho, o resultado costuma ser deficiente. O advogado formula quesitos juridicamente corretos mas clinicamente ingênuos. O médico formula quesitos clinicamente sofisticados mas processualmente irrelevantes. A colaboração entre os dois é o que produz quesitos que funcionam nos dois registros.

Não é que o advogado não consiga formular quesitos. É que, para os pontos médicos mais finos do caso — onde a perícia realmente se decide —, a contribuição do assistente técnico é o que transforma uma lista de perguntas em instrumento de prova.